Em 1949, Mokiti Okada, filósofo japonês que preconizou a AGRICULTURA NATURAL, um modelo agrícola baseado em práticas de manejo biológico dos solos (por meio da deposição de matéria orgânica vegetal somado ao uso de compostos naturais) escreveu, com base em suas observações, algo bastante contraditório:

o adubo é a fonte do enfraquecimento da planta.

Ora, aquele que deveria ser o “alimento” da planta ao invés de nutrí-la, enfraquece-a, deixando-a suscetível ao ataque de pragas.

Naquela época, em pleno pós-guerra, onde as indústrias químicas estavam chegando com tudo para “salvar a lavoura” e aumentar a produtividade, essa teoria era considerada absurda e apenas seguidores próximos se aventuravam a experimentar seus princípios, cultivando alimentos sem o uso de adubos químicos ou excrementos animais e os relatos são que estes corajosos agricultores experimentavam excelentes resultados.

Até que na década de 1970, o pesquisador francês Francis Chaboussou confirmou por meio da ciência aquilo que havia sido intuído e observado por Mokiti Okada. É de Chaboussou a TEORIA DA TROFOBIOSE, que afirma que os agrotóxicos e fertilizantes são a principal causa do aparecimento de pragas.

Imagem: arquivo Fundação Juquira Candirú

Nutrição às avessas


Os fertilizantes nitrogenados, a base de sulfato de amônia, uréia ou nitrato de potássio são largamente utilizados na agricultura contemporânea, desde o plantio como em cobertura, durante o ciclo vegetativo da maior parte dos cultivos agrícolas convencionais.

Esta adubação tem como objetivo fornecer nutrientes para as plantas por meio de sais de nitrogênio solúveis em água. Mas, o que se pode observar na prática é que poucos dias após o uso destes fertilizantes ocorre um aumento tanto no aparecimento das doenças das plantas, como também é percebida uma elevação da população de diversos insetos, que passam a causar danos aos cultivos, tornando-se pragas.
Chaboussou constatou que tanto a adubação nitrogenada, como diversos agroquímicos, ambos obtidos do petróleo, deixam as plantas saturadas de aminoácidos livres e não conseguem transformar esses aminoácidos em proteína na velocidade compatível ao seu incremento e isso cria um desequilíbrio que faz com que eles fiquem disponíveis para os insetos e tornem a planta mais vulnerável para doenças.

Como consequência do aumento das populações de insetos nocivos à planta, o agricultor lança mão ao uso de inseticidas, o que resulta na ampliação do desequilíbrio nutricional das plantas cultivadas tornando-as ainda mais vulneráveis. Em outras palavras, os inseticidas e fungicidas que são usados para proteger as lavouras, pelo princípio acima, potencializam a causa do problema.
Esses inseticidas são geralmente sistêmicos (carregam um princípio ativo que se transloca na seiva da planta) e irá causar ainda um desequilíbrio maior pois irá matar o “inseto praga” e também o “inseto predador”.

Já em relação aos fertilizantes nitrogenados, estes são pulverizados na lavoura e parte volatilizam em forma de gases, vão para a atmosfera, contribuindo para o problema do efeito estufa. A outra parte escorre pela terra e atinge os lençóis freáticos, contaminando as águas com nitritos e nitratos.

Infelizmente, o uso de fertilizantes químicos está ainda muito arraigado na cultura tanto dos agricultores quanto dos técnicos deste modelo dito “moderno” e isso os faz reféns da indústria dos fertilizantes e agroquímicos, que incentiva e financia todo o sistema agrícola.


Como solucionar os efeitos adversos do uso dos Adubos Nitrogenados


Desde a década de 1950, diante dos efeitos colaterais indesejáveis dos adubos nitrogenados, iniciou-se o estudo e desenvolvimento de adubos orgânicos e organominerais, com o intuito de sucedê-los, visto que estes adubos nitrogenados, apesar de amplamente utilizados na agricultura atual, podem ser considerados ultrapassados.

Vários caminhos foram trilhados, desde o desenvolvimento de biofertilizantes obtidos por fermentação aeróbia ou anaeróbia de materiais orgânicos, como excrementos animais; A utilização de chorume obtido a partir de usinas de compostagem ou processos industriais; A produção de fertilizantes a base de ácidos húmicos e fúlvicos como base de adubos organo-minerais; E, mais recentemente, o uso de fertilizantes orgânicos ricos em compostos orgânicos de baixo peso molecular, conhecidos como bokashi.
Por outro lado, a fixação biológica de Nitrogênio foi muito desenvolvida e aperfeiçoada, tanto em plantas leguminosas por meio da simbiose com as bactérias dos gêneros Rhizobium e Bradyrizobium, quanto por meio da fixação biológica de nitrogênio por bactérias em vida livre, como acontece com o gênero Azospirillum.

Somado a isto, já existem uma infinidade de inoculantes biológicos à base de bactérias do gênero Bacillus com diversas funções tanto na estruturação biológica dos solos, quanto para solubilização de Fósforo por exemplo, além de funções de defesa e proteção das plantas cultivadas. Percebe-se aqui que esta é a “boa nova” da agricultura contemporânea, que prioriza a estruturação física e biológica dos solos, como preconizou Mokiti Okada, ainda na década de 1930.

Experimentamos hoje o advento de uma nova agricultura com alta tecnologia baseada em técnicas microbiológicas de última geração. E o que é melhor: estas tecnologias são de uso e manejo de microrganismos naturais oriundos dos mais diversos ecossistemas naturais, ou seja, não são transgênicos e por isso mesmo são estáveis e não poluentes. Por serem organismos vivos não são patenteáveis, o que os tornam extremamente baratos e não poluem o meio ambiente.
Seu único “defeito” é não possibilitar lucros exorbitantes às indústrias produtoras de adubos químicos e agroquímicos. Fato que não deixará saudade aos agricultores.

Com mais de 30 anos de experiência no desenvolvimento dessas ferramentas tecnológicas e seu uso e manejo nos mais diversos solos agrícolas em sistemas sustentáveis e orgânicos pude comprovar, na prática, que já possuímos tecnologia suficiente para substituir de forma segura o uso de fertilizantes nitrogenados e bani-los da agricultura, a médio e longo prazos, de forma a fundamentar um modelo de Agricultura Viva, que privilegia a estruturação e regeneração dos solos em base sustentável com o objetivo de tornar a agricultura mundial livre do petróleo e, por isso mesmo, superavitária. Tanto energeticamente quanto economicamente.
Nosso “sonho de consumo” é uma agricultura que tem grande produtividade mas ao mesmo tempo irmanada com o meio ambiente.